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E EU? NÃO SOU MESMO CORRUPTO?

 A eleições brasileiras e o famoso “jeitinho brasileiro”

Filas de brasileiros esperando por atendimento de saúde... em vão! Educação em níveis africanos... Quando me deparo com essas questões, fico pensando que se nós, brasileiros, tivéssemos um maior grau de civilidade, de asco à corrupção, a partir das pequenas coisas, as grandes – como saúde e educação - seriam diferentes.
O fato, detestável, é que a corrupção é considerada pelos brasileiros com naturalidade. Vence quem trapaceia mais e melhor. A gatunagem, sinônimo mais honesto para o famoso “jeitinho brasileiro”, foi erigida ao grau de qualidade de caráter do brasileiro. E a parcela honesta da população, essa coitada ingênua, crédula, que se salve, se puder!
Quero registrar minha perplexidade em relação aos resultados das pesquisas de intenção de voto para as eleições de outubro de 2014. Intriga-me o fato de estarem bem colocados nas pesquisas candidatos sabidamente corruptos; candidatos que pessoalmente, ou por meio de sua caterva, se atolaram em episódios de corrupção comprovada. Como é que grande parcela da população brasileira ainda intenta perpetuá-los no poder, mesmo tendo conhecimento de suas falcatruas? É estarrecedora essa constatação! Pus-me a tentar desvendar... e poderíamos desfiar dezenas de argumentos de ordem antropológica, sociológica e histórica, a começar da colonização do Brasil! Mas não cheguemos a tanto. 
Segundo os sociólogos estudiosos do comportamento eleitoral, existe um “núcleo duro” de eleitores de plantão que não arreda pé de querer ver seu partido se eternizar no poder. Eles representam algo em torno de 20% das intenções de voto em seu partido e são formados, a meu sentir, por duas categorias de pessoas.
O primeiro grupo se forma pelos empedernidos, cuja consciência foi cauterizada e vacinada contra qualquer objeção que se faça ao modus operandi de seu partido, cegos e surdos para qualquer argumento sólido de evidência de corrupção, sempre prontos a vomitar a verborreia acerca da “elite dominante que persegue o pobre e oprimido...”, num blá blá blá rítmico insuportável. Aliás, para esses é que calha bem a defesa de mordaça ao Ministério Público e ao Judiciário, esses vermes da tal elite aos quais a Constituição Federal atribuiu poder demais.... ao ponto de injustiçar e prender a companheirada. 
A outra parcela pertence a uma categoria mantida sob um honroso cabresto: a dos beneficiários de programas de transferência de renda. Não sou contra esses programas, muito menos contra quem deles por necessidade extrema se utiliza. É assente que os países em processo de emersão da pobreza necessitam fazer uso temporário desses programas com o fim de livrar sua população da fome e da miséria. Contudo, a percepção dessa renda nunca teve, no Brasil, um cunho claro, expresso, de temporariedade. Por que? Interessa ao poder dominante manter estes últimos em estado de semianalfabetismo e pobreza esmolada, vez que a ignorância garante o desconhecimento do escândalo de corrupção da vez. 
Como explicar então que tantos continuem a usar de seu voto para garantir a permanência de corruptos no poder? Eu responderia: porque muitos de nós, brasileiros, já incorporamos com normalidade a cultura da corrupção... “achado não é roubado!” e “bobo é quem não aproveita!”. Maldita a nossa cultura do jeitinho!
 No final das contas, a verdade é crua: vota em corrupto quem corrupto é, ou gostaria de conseguir ser sem sofrer flagrante. Vota em corrupto aquele que se vê espelhado em seu candidato corrupto que “deu certo”; afinal, foi “esperto” o suficiente para, contra todas as evidências, se manter na glória embriagante do poder. O eleitor se projeta no ser que ele admira ou gostaria de se tornar. E que se dane, reflete o eleitor tão corrupto quanto seu candidato, se o dinheiro público desviado poderia ser suficiente à construção e manutenção de hospitais e escolas, centenas deles. Importa que o ídolo seja alçado ao poder, e quem sabe um dia, “eu também venha a morder um naco desse bolo”...!
De minha parte, vou continuar tendo esperança de que nosso paradigma brasileiro de lisura se transforme. Utopia barata? Tomara que não. Para tanto, não entrego meu voto a quem sabidamente faz parte de corjas enlamaçadas de corrupção. É o mínimo de decência que um cidadão de bem deve ter.
 
JANE ARAÚJO SANTOS é Procuradora Regional do Trabalho em Goiás – Ministério Público do Trabalho