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O Encontro Mosaico sobre Cristianismo Público

Parece ser uma regra o fato de que, quando há constatação da falência de um empreendimento qualquer, sempre esta é acompanhada por uma perspectiva pessimista dos tempos.  A igreja de Cristo não escapou deste fenômeno. Não são poucos os que dizem estar cansados da igreja por ela ter se desfigurado em mediocridades sem fim. Contudo, será mesmo este o caso?
O Encontro Mosaico sobre Cristianismo Público, que aconteceu na cidade de Goiânia em março, mostrou que existe exceção a esta regra. Pensado, organizado e levado a cabo por uma rede de instituições, movimentos paraeclesiásticos e jovens discípulos de Cristo. Conforme testemunhou o arquiteto e membro do movimento, Estevão Ávila Oliveira: “Vivemos o corpo de Cristo, o mosaico, onde cada parte tem o seu papel, sua função; e todos unidos dão forma ao que é realmente o movimento do processo, da relação, da interação uns com os outros”. Mais do que um relato de caso, a presente reportagem é uma pequena confecção da trama de impressões e conteúdos produzida pelo Encontro Mosaico sobre Cristianismo Público.
Colocando-se o desafio de pensar as condições de um cristianismo de relevância e de dimensões públicas, o Encontro Mosaico não desconsiderou o fato de os últimos séculos de propagação da fé cristã terem sido marcados por uma espiritualidade individualista, que produziu conversões religiosas igualmente egocêntricas e socialmente indiferentes. Segundo observou o publicitário e empresário, Gustavo Costa: “O Cristianismo Público me mostrou o quanto a igreja está entorpecida com as ilusões do mundo e consigo mesma, fazendo com que não se consiga mais ter uma expressão verdadeira de Cristo na sociedade”. Na verdade, foi justamente a partir deste terreno mencionado que o trabalho de Igor Miguel – teólogo reformado, coordenador pedagógico da Organização Multidisciplinar de Capacitação e Voluntariado e militante do #IgrejaNaRua,– foi feito. 
Nas palavras do palestrante principal do evento, trata-se de: “pensar e considerar seriamente como o cristianismo legou ao Ocidente inúmeras conquistas e reformas em relação aos direitos humanos, à ciência, transformação social e à justiça pública. Sem uma educação cristã que valorize o engajamento cristão em questões de natureza pública, com foco no bem comum, sem perder de vista o anúncio do Evangelho, cairemos em um formato de cristianismo que não tem qualquer relevância”, deixando claro que a esfera política não é um ambiente religiosamente neutro. Antes, ele ocupou-se em mostrar que atrás das alegações de neutralidade confessional e laicidade de algumas plataformas políticas, existe na verdade uma forte tendência de secularização das concepções que, não apenas têm suas raízes na fé cristã, como também, se forem desconectadas deste 
contexto histórico, perdem todo o seu sentido. Conceitos como: bem comum, direitos humanos e justiça pública seriam inimagináveis sem a herança judaico-cristã na ciência política. 
Além disso, Igor Miguel nos lembrou também que a fé cristã é essencialmente política. As referências a Deus como “soberano”, “rei”, “juiz” e Cristo como “o Senhor” são, todas, atribuições teológico-políticas. Isto faz com que seja inadmissível para um discípulo de Cristo que qualquer poder se torne absoluto sobre ele, a não ser o do próprio Cristo. Tal maneira de apresentar este cristianismo público chamou a atenção de quem participou do evento: “dentre todos os assuntos abordados, o que mais me chamou a atenção foi a incoerência destacada pelo palestrante Igor Miguel entre o domínio, a segregação e a assimilação da postura cristã na política”, observou Paullo Di Castro, jornalista e fundador do projeto AQUA. 
Mesmo diante deste caráter extremamente frutífero que a fé cristã assume em suas dimensões públicas, algo ficou claro na oportunidade que tivemos de debater, na sessão noturna do evento, junto ao próprio Igor Miguel e com Ana Elizabete Machado, membro do Conselho Nacional da Juventude: a natureza política do cristianismo evoca tanto o reconhecimento de uma diversidade de aspectos da criação de Deus, como também de uma variedade de formas como o mundo e a sociedade se organizam. Em termos políticos, isso significa dizer que “um cristianismo público deve livrar-se da tentação de impor uma hegemonia ‘cristã’ sobre a sociedade (constantinismo), e reconhecer certo pluralismo confessional. A comunidade cristã não se oporia ao direito de outras comunidades confessionais existirem. Por outro lado, porém, lutaria pelo direito de sua comunidade (a cristã) se posicionar de forma igualitária em questões de interesse público (bem comum) a partir de sua cosmovisão. Neste caso, nossa articulação se daria em traduzir e defender em uma linguagem ‘universal’ a relevância pública daquilo que nos é ‘particular’, conforme esclarece Igor Miguel. Essa perspectiva despertou o interesse de quem participou das discussões levantadas na sessão noturna do Encontro Mosaico, pois, como colocou o pastor Marcos Rocha: “Além da extensa bagagem teórica, eles demonstraram um grande engajamento prático, tornando o debate mais rico. Vejo ainda uma enorme carência de ensino e discussão sobre a relação Cristianismo versus Estado, aumentando ainda mais a relevância de movimentos como o Mosaico”. Na verdade, a impressão que o pastor Marcos menciona, de carência de ensino e discussão sobre as relações políticas tangentes à cristandade é o grande desafio com que o Encontro Mosaico encerrou suas atividades. Trata-se de um desafio de natureza doméstica, isto é, de responsabilidade de cada uma das igrejas de Cristo. 
Muitos diriam que a Igreja brasileira está ainda muito longe de responder satisfatoriamente este desafio doméstico – aqueles pessimistas do início da reportagem. O Encontro Mosaico mostrou que isto não é verdade. Se os leitores nos permitem colocar mais uma peça na composição desta obra, a palavra termina com a estudante de Ciências Econômicas (UFG), Sarah Siqueira: “o Mosaico representou a possibilidade de agir rumo a mudanças estruturais dentro da sociedade(...) pois discutiu o papel do cristianismo no âmbito público, assim como a posição que o cristão engajado em cumprir o amor horizontal deve ter frente à sociedade e às decisões políticas tomadas dentro do país”.
Se estes foram realmente os desdobramentos que provocamos, que venham os próximos Encontros!
 
Pedro Lucas Dulci - Mestrando em Filosofia política e ética (UFG), graduando em Teologia (SPBC) e membro do Movimento Mosaico.
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